Bons Livros Fazem a Diferença!


Por Lícia Arruda

Vivemos tempos em que a leitura não faz parte do dia-a-dia de muitas famílias. Tenho a impressão de que estão todos cansados demais, enfadados demais, impacientes demais e “virtualizados” demais para separar tempo para ler para os filhos. A televisão e, sobretudo, a internet, com suas enlouquecedoras redes sociais, estão minando o tempo que poderia ser disponibilizado para a comunhão familiar, para o estudo da Palavra de Deus, para os passeios e para a leitura.

Piorando essa situação, por si só desastrosa, nossas livrarias estão inundadas de livros de péssima qualidade. Eles se parecem com amontoados de papéis, cheios de frases sem sentido que usam vocabulário paupérrimo. São, em sua maioria, livros de personagens de desenhos animados infantis. Pobreza literária completa. Não tenho nenhuma dúvida de que “livros” como estes, encontrados aos montes em qualquer “megalivraria” do nosso país, não contribuem em nada para a formação literária de nossas crianças.

Sou mãe homeschooler de duas crianças. Eles têm 5 anos e 3 anos. Vou me ater, portanto, a compartilhar um pouco do que temos vivenciado aqui em termos de leitura.

Meus filhos ainda não são alfabetizados. Eu leio em voz alta para eles todos os dias. Leio livros que, ao longo dos anos, ou mesmo dos séculos, foram aclamados como clássicos. São livros com texto bem organizado, pois seus autores eram pessoas que dominavam o próprio idioma, ou seja, sabiam usar as palavras e sabiam construir um texto. Além disso, são livros que passaram no filtro bíblico, ou seja, eu os li antes e não percebi nada que pudesse trazer confusão espiritual para a vida deles. Finalmente, leio a versão completa para eles (não leio adaptações infantis e nem resumos), com pouco auxílio de figuras.

Algumas pessoas me perguntam se eles entendem. Esclareço a elas que não espero que eles façam uma avaliação da mensagem do texto, nem me falem suas impressões. Meus filhos não têm idade, maturidade e nem conteúdo para isso. Meu objetivo é que eles sejam expostos a textos bem construídos, para que, no futuro, organizem bem os textos que escreverão. Esclareço, ainda, que eles CONSEGUEM formar imagens mentais muito claras do que leio. Essa habilidade, que desejo que eles desenvolvam, é fortalecida a cada dia com o hábito de ouvir a leitura de bons livros, mesmo aqueles com poucas imagens.

Percebo que eles formam imagens mentais do texto porque frequentemente vão brincar um pouco sobre aquilo, assim que eu acabo de ler um determinado trecho. Vão “fazer de conta”. Assim, eles vivenciam o texto. Não é um momento meu. É um momento deles. Eles criam as brincadeiras. Percebo que é uma forma que eles têm de guardar o texto. Para mim, também é ótimo, pois acaba funcionando como narração (reconto) do texto, já que eles vão falando enquanto brincam. Vejam alguns momentos de brincadeiras literárias que eu captei:

 

  • Mestre Gil de Ham (J. R. R. Tolkien): eles usaram um brinquedo de fazendinha que temos. Pegaram dois bonequinhos para serem o casal Ham e um cachorrinho e um dragão de plástico, representando Garm e Chrysophylax. Com isso, eles recriaram muitas partes do texto que lemos naquele dia.

 

 

  • O Jovem Fazendeiro (Laura Ingalls Wilder): extração de seiva das Mapple Trees para fabricação de xarope de bordo. Aqui eles pediram a minha ajuda para montar uma árvore. Usamos flutuadores que já tínhamos em casa. Eles pegaram baldinhos e furaram as “árvores” para que a seiva escorresse para os baldes. Depois eles mesmos montaram uma “fogueira” e colocaram a seiva para ferver. Recriaram, assim, um dos capítulos do livro.

 

Outra forma que uso para perceber o que eles conseguem lembrar do texto é o desenho. Abaixo, meu filho desenhou o Ratinho e o Toupeirinha, do livro “O Vento nos Salgueiros” (Kenneth Grahame). No trecho lido, os dois personagens estão passeando no barco do Ratinho. Ele lembrou-se que era um dia ensolarado, lembrou-se que o rio corria calmo e lembrou-se que os personagens estavam felizes.

 

 

Uso, também, o recurso simples e direto da narração. Não é usual que eu faça isso. Geralmente, peço que narrem textos mais curtos e que já lemos outras vezes. Mas, tenho inserido, lentamente e sem pressão, a narração de textos mais complexos (como dos clássicos que lemos). Os resultados têm me emocionado, pela qualidade daquilo que eles têm conseguido lembrar.

Finalmente, sei que eles apreciam a leitura de livros clássicos porque sempre que terminei a leitura o que ouvi foi: “Vou ficar com saudade… continua… por que terminou?”. Gastamos muito tempo para ler um livro todo. Bambi (Felix Salten), com 214 páginas, prolongou-se por 2 meses. Ao final, o que ouvi foi: “vou sentir saudade do Bambi; o que aconteceu com ele depois? Eu quero mais”. O resultado é que, a pedido deles, temos agora uma lista de espera de “releituras”. Sim, separo uma hora do dia para “reviver” livros que eles amaram. Assim, já relemos as versões integrais de “Pinóquio” (Carlo Collodi); da autora Ruth Stiles Gannett, a trilogia “O Dragão do meu Pai”, “Aderbal e o Dragão” e “Os Dragões da Terra Azul”. A próxima releitura enfaticamente encomendada é “O Menino do Dedo Verde” (Maurice Druon).

Concluo ressaltando que as crianças merecem ouvir bons livros. Deus as deu inteligência e uma memória impressionantes. Sejamos bons mordomos daquilo que Deus confiou aos nossos cuidados. Cultivemos a mente sadia dos nossos filhos. Eles se lembrarão com carinho dos momentos que passamos deitados juntos num colchãozinho no chão ouvindo histórias maravilhosas!!!

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